É curioso como os sentimentos flutuam e se transformam na prática de viver intensamente a escola e a vida. Hoje estou assim: pedaços, fragmentos, partículas sem forma.E relendo as últimas 4 ou 5 postagens percebo o quanto nossas emoções vão mediando e dando sentido às experiências singulares que cada um tem vivido no projeto, seja na escola como professor, como observador ou como aluno. São conquistas, desafios, dificuldades e incertezas mediados pelas diferenças de quem somos e de como fomos ontem, a semana passada, há 8 meses quando iniciamos esse blog.
Eu fiquei pensando o que dizer sobre o papel da escola para o século XXI e entendi que ainda não recriamos a escola do século passado. Falamos em criar "cidadãos", mas uns devem ser mais cidadãos que outros. Falamos em formar pessoas críticas, mas uns devem ser mais pensadores do que outros. Falamos em preparar profissionais, mas uns devem ser mais bem sucedidos do que outros. Aos nossos filhos, o conhecimento. Aos filhos do outro, os diplomas. Aos nossos filhos, informações sobre o mundo, sobre a história, sobre a linguagem. Aos filhos do outro, terminar o livro didático. Aos nossos filhos, inglês preparatório pro First. Aos filhos do outro, leitura instrumental (seja explorando gênero ou na forma clássica). Aos nossos filhos, universidades públicas. Aos filhos do outro, mais diplomas. Aos nossos filhos, profissão. Aos filhos do outro, trabalho.
Na escola "real" de 2008, o aluno é aquele que o professor não deseja encontrar, com quem ele não tem prazer em interagir, aquele que ele prefere não reprovar pra não ter que conviver de novo no próximo ano.
O tom ácido dessa reflexão vem da experiência do conselho de classe. Ainda que eu tenha ficado satisfeita em ouvir os professores dizendo "eu estou muito feliz com a 6a E. Eles melhoraram tanto comigo", não dá pra esconder a frustração de saber que aquele que deveria ser o motivo do nosso trabalho é tratado como alguém a quem não se ama. Então, ouvi coisas assim:
_ Ele compensa reprovar. Já reprovou alguma vez? Compensa reprovar.
_ Esse vai ter no máximo um segundo grau pra trabalhar de mecânico ou numa borracharia.
_ O [nome do aluno] não consegue comigo. Comigo ele não consegue. Precisa de 7,4. Ele não consegue.
_ A [nome da aluna] não enxerga o estudo como caminho. O negócio dela vai ser outro e bem outro.
Essa é a escola pública que fazemos. Sua missão tem sido a de marginalizar os marginalizados e de fazer fracassar os que têm poucas chance de sucesso. A escola pública do século XXI é essa que vê o aluno (aquele que não é nosso filho, ou sobrinho, ou primo, ou vizinho) como incapaz, "limitado", cheio de debilidades e impossibilidades. É uma escola que prepara o filho do borracheiro para ser boracheiro e o filho do médico (que não está na escola pública frequentada pela grande maioria das crianças do nosso país) pra ser médico.
Não dá pra pensar a escola assim. Acho que precisamos mesmo pensar que democracia e liberdade se constróem somente quando todos podem ser.
2 comentários:
Infelizmente a mensagem da Professora Elaine transmite nossa realidade cruel. Cabe a cada um de nós professores, alunos, formadores, alunos-professores...trabalhar para mudar esse cenário. Ainda que nosso trabalho seja pequeno, e pouco represente, é uma semente que lançamos por um futuro melhor!
" Sei que meu trabalho é uma gota no oceano. Mas sem ele, o oceano seria menor" ( Madre Teresa de Calcutá).
Eu acredito que ainda que seja uma gota, é preciso presseguir... em busca de um futuro melhor!
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